“Políticos têm papel central na disseminação das fake news”, explica pesquisadora

Crise da informação se acentua na pandemia da covid-19; cenário de eleições 2020 é preocupante 

Texto por Wesley Bomfim

“Aqui em casa eu, minha mãe, minha vó e meu tio que tem síndrome de down tomamos ivermectina [para prevenção da covid-19], por recomendação de uma médica amiga da família. Na época eu amamentava e depois que eu ingeri foi que eu soube que lactantes não podiam, mas não tinha mais jeito”.

Depois da confirmação do primeiro caso da covid-19 no Brasil, em fevereiro, não demorou a surgirem e se espalharem fake news sobre a doença. O relato de Emmily Guimarães (19), que vive no município de Taperoá, no interior da Bahia, se assemelha ao de muitas outras pessoas no Brasil que foram vítimas das notícias falsas e acabaram por fazer o uso indiscriminado de medicamentos, sem evidências científicas de eficácia clínica contra a covid-19. 

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o cenário é de “infodemia”, a pandemia das falsas informações. A pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD), Nina Santos, explica que “políticos têm papel central na disseminação das fake news. A visibilidade dessas figuras reforça e acelera os compartilhamentos dessas notícias”. 

Em Feira de Santana, município da região metropolitana de Salvador (BA), o médico e ex-prefeito da cidade, Tarcízio Pimenta, contraiu covid-19 e afirmou publicamente ter usado, por indicação médica, a hidroxicloroquina e azitromicina no seu tratamento. Já na cidade de Itagi, na região Sul da Bahia, a prefeitura chegou a criar o “Kit Covid”, que continha os medicamentos azitromicina, ivermectina e hidroxicloroquina – o primeiro atua apenas no controle de alguns sintomas da covid-19, os dois últimos não possuem eficácia comprovada para a doença.

De veto ao uso obrigatório de máscaras, à recomendação do isolamento social apenas para os perfis que se enquadram no grupo de risco da doença, o presidente da República, Jair Bolsonaro, se opôs publicamente às recomendações da OMS de combate ao novo coronavírus.

“A disseminação de notícias falsas, é nociva para a Democracia porque ela mina a possibilidade dos cidadãos de tomarem decisões e formularem opiniões baseadas em informações que tenham lastro na realidade em que eles vivem, tende a acentuar a polarização política, e é um fenômeno que precisa ser amplamente combatido”, explicou Nina. A crise da informação é central em qualquer momento da vida política, e se acentua neste momento de crise econômica e de pandemia. 

Com a pandemia da covid-19 limitando eventos de campanha, e as redes sociais se consolidando como importante fonte de informação, o fenômeno do uso prioritário do meio digital para o processo eleitoral brasileiro se intensifica em 2020, e o cenário preocupa. 

“As fake news que circularem nas maiores capitais têm mais possibilidade de serem checadas, graças aos projetos de fact checking (checagem dos fatos). O que mais preocupa são aquelas que circulam nos microambientes, nas pequenas cidades, e que acabam não tendo uma resposta a altura por conta da falta de iniciativas locais de checagem de notícias”, detalhou a pesquisadora.

Diante desse cenário, a Conexão Malunga reuniu algumas estratégias no combate e prevenção às fake news nas eleições 2020, direcionadas para o público eleitor, que podem auxiliar na construção de um processo eleitoral mais justo e democrático. Confira:

  • Atentem-se ao comportam dos seus candidatos durante a campanha: o que eles dizem, quais ações pretendem adotar como política em relação às fake news, uma vez no governo;
  • Criação de iniciativas locais/municipais/regionais de checagem de informação, ou reforço das redes já existentes de produção informativa de qualidade;
  • No aplicativo Pardal, criado pela Justiça Eleitoral, é possível fazer denúncias sobre irregularidades em campanhas eleitorais;
  • Se foi possível identificar as notícias falsas nas redes sociais, reporte através de denúncia nas próprias plataformas.
  • Uma parceria entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o WhatsApp criou um bot para combater as fake news e informar sobre medidas sanitárias a serem adotadas no dia das eleições. Para interagir com ele, é só mandar uma mensagem para o número (61) 9637-1078 ou abrir o link wa.me/556196371078 no celular.
  • Acompanhe iniciativas que tenham credibilidade na produção e compartilhamento de notícias sobre as eleições. Um exemplo é o Primeiro Voto, perfil jornalístico no Instagram.

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