Vídeo-conferências de ativistas são invadidas com discurso de ódio

Vídeo-conferências de ativistas são invadidas com discurso de ódio

Texto por Tainã Souza

Grupos minoritários sofrem ataques em vídeo-conferências

No dia 16 de setembro o Diadorim – Centro de Estudos em Gênero, Raça/Etnia e Sexualidade da UNEB (Universidade do Estado da Bahia), sofreu um ataque contendo discursos ofensivos aos participantes durante um evento virtual, realizado pela plataforma Google Meet. Seis hackers invadiram a sala, usando nomes diferentes, utilizando-se de palavrões e insultos na tentativa de acabar com o evento. O webinário organizado era de apresentação de pesquisas de especialização, com representantes da equipe gestora da universidade e outras autoridades presentes.

Este caso integra outros episódios de ataques digitais contra ativistas, na maioria das vezes envolvidos em ações de combate ao racismo, ao sexismo e a LGTQIA+fobia. Há um mês, o evento “Egbé da Preta”, realizado pela plataforma Google Meet,  reuniu cerca de 60 pessoas no lançamento da pré-candidatura de Lindinalva de Paula à vereadora do município de Salvador. Esse ataque, marcado pelo discurso de ódio às mulheres negras ali presentes, contou também com e exposição de cenas pornográficas, acompanhadas de ameaça de morte às pessoas presentes.

Em sua rede social, a candidata compartilhou fotos do momento dos ataques. #ParaTodosVerem: na imagem, duas fotos, de uma vídeo chamada na plataforma Google Meet, sobre um fundo amarelo. Na primeira, 16 janelas de vídeo com pessoas aparecendo. Na segunda, uma janela de vídeo maior com uma mulher negra de dreads e blusa amarela. Ao lado, quatro janelas de vídeo com mulheres negras também.

Em entrevista ao Conexão Malunga, Lindinalva avalia que ataques dessa natureza, direcionados às minorias sociais, tem sido ampliados através do ambiente digital e ensejo do ódio em outras esferas da nossa sociedade brasileira. “Temos o aumento de prática racista,  o aumento de violência contra as mulheres, o aumento às comunidades e povos tradicionais a partir de um governo que incentiva e dissemina o ódio. As lives que foram atacadas tem esse perfil de fazer enfrentamento e tem essa bandeiras de luta”, observa de Paula.

No caso do Diadorim/UNEB, o coletivo de professores publicou uma Carta Pública de Denúncia, destacando como ataques da mesma natureza tem acontecido em todo o país, de forma organizada, tendo instituições públicas de ensino e movimentos sociais como seus principais alvos. O coletivo também reivindica das Universidades segurança digital e proteção institucional.

Insegurança na alternativa

Com a pandemia do covid-19 e o isolamento social,  aplicativos de videoconferência tornaram-se alternativas para a realização de reuniões online. O aumento significativo do uso dessas plataformas por empresas e educação remota, gerou a necessidade de fortalecer medidas de segurança, diante fragilidades encontradas com a ocorrência de invasões, contendo discursos de ódio e compartilhamento de conteúdo pornográfico. 

O Zoom, que ampliou o número de usuários em 2020 teve o seu uso proibido pela Anvisa, após apresentar diversas vulnerabilidades no acesso às salas e invasão de câmeras e microfones. O Meet, plataforma de videoconferências do Google também passou por uma reformulação nas regras de acesso às salas de reunião e compartilhamento de tela.

De acordo com a Safernet, instituição brasileira de promoção de direitos digitais, crimes de ódio são caracterizados como manifestações que atacam e incitam ódio contra determinados grupos sociais baseadas em raça, etnia, gênero, orientação sexual, religiosa ou origem nacional. Em 2019, o canal de ajuda da instituição registrou 4.310 denúncias anônimas de racismo, 7.112 denúncias anônimas de violência ou discriminação contra mulheres e 2.752 denúncias anônimas de homofobia. Esses dados entre outros crimes, constam na Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos.

Para a jornalista e pesquisadora de cultura digital Juliana Motter, integrante do GIG@ (Grupo de pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura), explica que “a internet viabiliza que o ódio às mulheres seja perpetuado e compartilhado por mais pessoas e/ou usuários pela falta de regulação, embora hoje existam iniciativas de reclame como a Lei Lola (n° 13.642/2018), que visa justamente combater os discursos misóginos e a perpetuação de diferentes tipos de violências contra mulheres na Internet”.

A doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA) avalia a partir de suas pesquisas sobre estrutura do discurso de ódio a responsabilidade das plataformas de rede social. “Muitas delas ainda permitirem que usuários criem perfis fakes possibilita um compartilhamento indiscriminado de informações, dados e até fotografias pessoais de mulheres – é o caso da pornografia de vingança, por exemplo -, além de ameaças, como os linchamentos virtuais, que agravam a situação. Até essas ameaças serem retiradas ou vetadas, ainda não há o que impeça outras pessoas de compartilhar e replicar em outros lugares”, analisa. 

Caminhos para cuidado digital

Uma mulher negra de blusa verde cabelo longo, preto e cacheado, está sentada na frente de um notebook, sobre uma mesa branca. Seu olhar aponta para o observador da imagem e reflete uma expressão de preocupação.
#ParaTodosVerem: A foto de uma tela preta de computador, contendo o nome “segurança” em azul e um ícone de mão em pixels.

A divisão de tarefas em webinários e conferências é ideal para dar celeridade na identificação dos autores de discurso de ódio. No caso de ataque ao Diadorim/UNEB, ao perceberem palavrões e insultos, os coordenadores pausaram a atividade para remover os invasores. O fato do link do evento ser disponibilizado via e-mail para os inscritos também ajudou no processo. 

 Registrar o acontecido para encaminhamento de provas em casos como o do “Egbé das Pretas” abre a possibilidade de formalizar a denúncia. “O jurídico do partido, entrou de maneira formal na Justiça a partir de todos os depoimentos que a gente tinha, e tudo o que foi gravado, os ataques duraram aproximadamente de 10 a 13 minutos, e foi tudo gravado, e filmado também, e foi disponibilizado para o jurídico que criou uma peça jurídica e apresentou uma queixa formal”, afirma de Paula.

Tenha em mãos também contatos de instituições e delegacias que prestam orientação para os impactos do discurso de ódio e outros crimes na Internet. Além disso, as defensorias públicas de sua região podem ser acionadas para orientação jurídica. Confira nossa lista que atendem todo país:

Disque Direitos Humanos: Ligue 100.

Centro de Valorização da Vida: atenção psicossocial. Ligue 188 ou acesse o site. Funcionamento: 24hrs todos os dias.

Safernet: Registro de denúncias e orientação. Linha de ajuda online.

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