#DIÁSPORA: Protestos pelo fim da brutalidade policial terminam em massacre na Nigéria

Massacre de Lekki é o episódio mais violento dos protestos pelo fim da SARS este ano.

Texto da Redação.

Na noite de ontem (20), por volta das 19h (GMT+1), manifestantes pacíficos pelo fim da SARS (Special Anti-Robbery Squad/ Força Especial Antiroubo) foram surpreendidos por uma abordagem violenta da organização policial no Lekki Tollgate, numa região rica da cidade de Lagos, centro empresarial nigeriano. 

Segundo Mayeni Jones, correspondente da BBC Nigeria, agentes policiais foram vistos criando uma barricada em torno dos manifestantes, antes dos disparos. No momento, são contabilizadas 12 mortes e 25 feridos. 

O governador do estado de Lagos, Babajide Sanwo-Olu, apesar de negar as mortes  no massacre, já reconhece que o número de feridos já torna o episódio “um dos momentos mais obscuros de nossa história como povo”

#ENDSARS

Dezenas de milhares de nigerianos tomam as ruas há duas semanas em protesto pelo fim da SARS após o assassinato de um jovem no sul do estado de Delta, sudoeste nigeriano. A SARS, criada em 1984 para lidar com o aumento dos crimes à época, é conhecida por ter se tornado uma força policial que acumula casos de abuso de autoridade, tortura, estupros e assassinatos extrajudiciais.

O presidente do país, Muhammadu Buhari, ordenou a dissolução da organização na primeira semana dos atos #EndSARS. “A dissolução do SARS é apenas o primeiro passo em nosso compromisso com uma ampla reforma policial, a fim de garantir que o dever principal da polícia e de outras agências de aplicação da lei continue sendo a proteção de vidas e meios de subsistência de nosso povo”, discursou o chefe do executivo. Contudo, o inspetor geral da polícia, Muhammed Adamu, readmitiu os oficiais nas unidades e comandos da SARS na semana passada.

Em junho deste ano, a Anistia Internacional publicou um relatório sobre casos de tortura, brutalidade policial e execuções pela SARS. Entre janeiro de 2017 e março deste ano, foram contabilizadas 82 casos. O órgão internacional abriu uma petição pelo fim da SARS. No Instagram, já são mais de 1 milhão de interações na hashtag #ENDSARS. 

À esquerda: Interação na hashtag #EndSARS acumula mais de 1 milhão de posts. À direita: postagem da Feminist Coalition denuncia conta bancária atacada.

Direitos Digitais

Segundo o The Guardian Nigeria, desde o dia 14 de outubro, há especulações que o governo poderia interromper o acesso a Internet no país em resposta aos protestos. A organização Feminist Coalition, grupo de feministas nigerianas que tem organizado conteúdo, doações e orientações para protestos #EndSARS, teve sua conta bancária desativada, segundo post no twitter no dia 13. Manifestantes também questionam que apesar do alto número de interações, o  Twitter tem escondido as postagens da #EndSARS do Trending Topics. Em resposta, os manifestantes criaram também a hashtag #SARSMustEnd.

No continente, entre 2016 e 2018 os governos no Sudão do Sul, na República dos Camarões, na Etiópia, na Somália e na República do Chad interromperam o acesso a internet e outros direitos digitais. Em contrapartida, o Fórum de Governança da Internet (IGF), evento internacional de decisão sobre o desenvolvimento dessa tecnologia, foi confirmado para ser sediado pela terceira vez no continente africano, na Etiópia, em 2022. Das 14 edições, África já recebeu o IGF em 2009, no Egito, e em 2011, no Quênia.

Na diáspora: #PRAYFORNIGERIA

A brutalidade policial é uma realidade na diáspora africana. Os protestos na Nigéria fazem parte de pressões políticas na diáspora pelo fim das brutalidades policiais. Em apoio ao #EndSARS, marchas têm sido organizadas em outros países como Gana, Canadá e Alemanha, sobretudo a partir das comunidades nigerianas internacionais.

Ao contrário do discurso racista, casos assim não se tratam de a violência ser mais forte em África. Em maio deste ano, aqui no Brasil, os protestos contra a brutalidade policial ganharam força após o assassinato de João Pedro Mattos, adolescente de apenas 14 anos, morto dentro de casa em operação da polícia militar do Rio de Janeiro. O assassinato de George Floyd, homem negro estadunidense morto asfixiado durante abordagem policial em Minneapolis (EUA), uma semana após o falecimento de João, deu lugar a protestos #VidasNegrasImportam no mundo inteiro. 

No pós George Floyd, apesar de as emissoras brasileiras de televisão começarem a tratar de racismo de maneira mais séria, diminuindo o enquadramento como “gafe” ou “questão de caráter”, continuam a não noticiar com destaque os acontecimentos, positivos ou negativos, do continente africano. 

Mesmo visibilizando o trabalho de jornalistas e intelectuais negres nos últimos meses e apesar de algumas reportagens sobre a escalada violenta na Nigéria, o tema #EndSARS na imprensa brasileira também não é considerado relevante. Numa pesquisa pelos termos “Fim da SARS” e “Fim da SARS Nigeria’ em dois buscadores*, Google e DuckDuckGo, hoje (21), por volta das 6h40, os resultados da primeira página são majoritariamente sobre o vírus da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), primeira epidemia do século XXI,  em relação ao vírus SARS-CoV-2, da pandemia do Covid-19. 

Resultados da Imprensa Brasileira sobre #EndSARS no Google.
Resultados da Imprensa Brasileira sobre #EndSARS no DuckDuckGo.

Informações coletadas de:

Aljazeera

Anistia Internacional

BBC Africa

Daily Post Nigeria

Feminist.CO

The Guardian Nigeria

*A pesquisa realizada pela Conexão Malunga foi feita na aba anônima dos navegadores, para evitar o enviesamento dos resultados a partir da conta da equipe jornalística.

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